18 maio 2016

Nova entrevista da Kristen comentando sobre Personal Shopper

Foi liberado o press kit de Personal Shopper, e nele contém uma nova entrevista com Kristen. A atriz fala sobre como entrou no projeto, como se preparou e muito mais.
Você pensou que trabalharia novamente com Olivier tão rapidamente, somente após dois anos de Sils Maria?

Não. Mas eu sabia que ele gostava de trabalhar com as mesmas pessoas, atores e técnicos. Então, no fundo, eu tinha esperança. Nós nos demos muito bem no set de Sils Maria e eu imaginei que, mais cedo ou mais tarde, nós trabalharíamos alguém em um projeto criativo. Mas eu não fazia ideia que seria tão rápido! Eu sou amiga do produtor de Olivier, Charles Gillibert. Ele que me disse que Olivier já estava trabalhando em um novo roteiro. Eu acho que estávamos em Cannes para Sils Maria. Honestamente, foi a primeira vez que conheci pessoas tão próximas que formavam um time de verdade. Eu não queria ir embora. Fomos feitos um para o outro! Eu tenho muita sorte. Então, quando Olivier me ofereceu a chance de atuar em Personal Shopper, vou admitir que estava animada, mas não estava surpresa. Nós realmente queríamos continuar nossa experiência como um grupo.

Eu tenho a impressão de que, em você, Olivier Assayas não achou somente uma atriz, mas sim uma pessoa ideal para incorporar o tipo de mulher jovem e moderna que ele sempre quis mostrar em seus filmes. Você pode dizer o mesmo por ele? Que ele é o diretor que você sempre procurou?

Sim, com certeza. Nós dois trabalhamos com muitas pessoas. Mas nós compartilhamos uma forma de comunicação não-verbal que é perfeita para nossa profissão. Nós não falamos muito, mas nós entendemos um ao outros e compartilhamos os mesmos interesses, assim como um tipo similar de curiosidade. É muito divertido trabalhar com ele.

Como Olivier Assayas te abordou com Personal Shopper?

Ele me disse que tinha escrito um roteiro muito simples, e que ele estava escrevendo com a esperança de que eu gostasse. Quando eu recebi o roteiro, eu estava muito assustada porque era difícil para mim imaginar ligar para o Charles ou Olivier e dizer para eles que não era para mim! Felizmente, esse não era o caso. Uma vez que li, eu fiquei muito impressionada. Era tão diferente de Sils Maria. Para mim, mais do que tudo! Eu pensei que conhecia Olivier, mas eu não conseguia entender como ele apareceu com essa estória. Abriu meus olhos para os aspectos mais escondidos da minha personalidade. É um filme muito contemplativo. Em Personal Shopper, Olivier consegue invocar palavras invisíveis de seu próprio jeito sem nomeá-las. Eu acho que é um filme mais pessoal do que Sils Maria. Não é analítico. É um filme sensual e completamente humano. Olivier é um cineasta inteligente que conseguiu expressar emoções bem privadas nesse filme. Foi muito legal. Eu não tinha sentido isso em Sils Maria.

Personal Shopper fala de temas incomuns no cinema francês, como fantasmas e espiritualismo, enquanto permanece diferente dos suspenses americanos envolvendo o sobrenatural. 

Sim. Em Sils Maria, interpretado por Juliette Binoche e minha personagem, Valentine, estamos tendo uma conversa sobre filmes. Elas descordam sobre um filme que acabaram de ver sobre mutantes no espaço. Valentine diz que há tanta verdade na fantasia ou ficção científica quanto nos filmes supostamente “mais sérios”. Esses filmes usam símbolos e metáforas, mas isso não os faz mais superficiais. Eles falam sobre a mesma coisa e examinam os mesmos assuntos explorados pelos filmes abertamente psicológicos. É engraçado pensar que Olivier literalmente baseou seu novo filme em um diálogo de Sils Maria. Personal Shopper também é um filme de gênero, o que o separa da maioria dos filmes de diretores franceses. É um filme de gênero que não tenta nos assustar com fantasmas, mas, ao invés disso, oferece uma reflexão sobre a realidade. O filme também faz, em minha opinião, a pergunta mais assustadora da vida: “Eu estou completamente sozinha, ou eu posso entrar em contato verdadeiro com outra pessoa?”

Qual foi o aspecto mais difícil de trabalhar em Personal Shopper?

Eu interpreto uma jovem mulher que é muito solitária, completamente isolada e triste. Foi exaustivo estar em personagem o tempo todo. Mesmo quando eu estava em uma cena com outros atores, eu nunca podia estar realmente com eles. É como se todos fossem fantasmas. Eu não me considerava uma pessoa limitada. Não podia existir o mínimo de interação entre nós porque eu realmente não sentia que eu existia. Eu mergulhei em um estado muito doloroso. Felizmente, eu estava rodeada de pessoas que eu amo e nunca me senti sozinha. Tive muita sorte. Se a atmosfera no set não tivesse sido positiva ou amigável, eu estaria devastada e provavelmente caída no chão. No filme, eu nunca paro de correr de um lugar para o outro. Estou sempre em movimento. Eu perdi muito peso durante as filmagens. Foi exaustivo.

Maureen odeia seu status como personal shopper, e também sua chefe rica e famosa. Mas ela não consegue deixar de experimentar as roupas da mulher, violando diferentes regras – e se divertir fazendo isso. 

Maureen é fascinada pela mesma coisa que ela odeia. Ela está passando por uma crise de identidade. Eu amo o fato de que ela não é exibida como uma feminista criticando a superficialidade da sociedade consumista. Ela está passando por dificuldade internas. Ela é muito atraída por esse mundo, onde a carreira dela está começando a tomar forma. Eu senti isso as vezes, como todo nós sentimos em certo ponto. A estória se passa no mundo da moda contemporânea, mas poderia ter sido em Hollywood em 1930. Eu não sei se as coisas eram piores ou melhores lá atrás. As pessoas sempre foram atraídas por todo esse brilho. Como pequenas traças.

Personal Shopper lida com o luto. Mas também é a estória da emancipação de uma jovem mulher, tentando encontrar a liberdade tomando um passo muito estranho.

Sim. Os melhores períodos da minha vida vieram antes de desastres. Momentos de serenidade ou satisfação geralmente seguem eventos traumatizantes. Você se sente mais vivo se já teve um encontro com a morte. No final do filme, mesmo que ela não tenha encontrado o que ela estava procurando, Maureen pode finalmente começar de novo.

Como você se preparou para o papel de Maureen? E, o quanto a aparência física de seus personagens é importante para você?

Absolutamente importante. Eu queria que as pessoas sentissem como se Maureen fosse uma gêmea procurando pela simbiose que ela perdeu quando seu irmão morreu. Então, eu imaginei ela tendo esse visual simples, quase andrógino. Sua aparência também reflete sua relação de amor e ódio com o mundo da moda. Portanto, a escolha das roupas foi muito importante. Quanto a preparação para o filme, eu sempre leio o roteiro uma vez, e então me recuso a ler de novo. Desse jeito, eu descubro as cenas todo dia no set. Eu não tive nada em particular para aprender no set. Olivier queria filmar mais cedo naquele ano para que eu pudesse seguir com o filme de Woody Allen, onde interpreto uma menina jovem, encantadora, feminina e alegre. Eu senti que era incapaz de fazer os dois filmes nessa ordem. Eu senti que, depois de tudo que eu iria passar por Personal Shopper, eu estaria devastada e nem tão bonita no final das filmagens! Eu não me preparei realmente, mas eu sabia onde procurar pelo o que eu precisava. Eu sabia onde encontrar o gatilho, e tudo o que eu tinha que fazer ela puxar. Eu estava pronta para fazer isso pelo filme.

Você filmou nas ruas de Paris com a equipe de Personal Shopper 48 horas antes dos ataques de 13 de novembro. É difícil de não pensar nisso enquanto assistimos o filme, o que parece ser carregado uma tensão e ansiedade específica para nosso tempo. 

Quando eu vejo o filme, eu digo para mim mesma que estamos no nosso próprio mundo, completamente absorvidos pelas coisas que nos preocupa, e de nós mesmos. Maureen é consumida por suas obsessão e ela quase não presta atenção para as coisas e pessoas ao seu redor. Ela não está realmente em Paris, ou em qualquer outro lugar. Me machuca quando assisto ao filme, que tem minha personagem correndo por Paris, uma cidade que está prestes a ser terrivelmente ferida, sem ter o mínimo de prazer. É muito doloroso e comovente. Eu odeio colocar nesses termos, mas tivemos sorte. Um dia depois do acontecido, nós tivemos que começar um novo dia de filmagens, mas foi quase impossível trabalhar. Tudo parecia tão falso. Filmar em um estúdio…

Antes de seus dois filmes com Olivier Assayas, qual era sua relação com o cinema francês?

Eu vi alguns essenciais, como Breathless e Jules et Jim. Charles, Olivier e toda a equipe abriram meus olhos para um novo mundo de exibições de filmes e cinefilia. Eu descobri muitos filmes franceses em DVD. Foi uma experiência única para uma atriz americana de repente se encontrar parte desse universo. É muito legal. Em Hollywood, todo mundo compartilha os mesmos valores. Aqui, na França, é muito mais variado e frenético. Nos Estados Unidos, os filmes são feitos para entreter e fazer dinheiro. Diretores e filmes da arte ocupam uma pequena porcentagem da indústria. Basicamente, os cineastas que eu mais gosto nos Estados Unidos são aqueles que compartilham uma certa ideia sobre cinema que é mais próximo de alguns diretores europeus e franceses. Na França, o motivo pelo qual fazem filmes não é o mesmo que em Hollywood. Há um desejo de correr riscos, ao contrário de filmes americanos de alto orçamento, que só estão interessados em repetir ideias que já foram tentadas.


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